arenosa
escrito em Jul 11, 2016
começa que é difÃcil continuar fazendo o que me cansa em nÃveis que não consigo explicar (e que decerto não fazem muito sentido). caminhar no que não mais me preenche, não mais em sólidos, apenas em leves nuances. gosto do que faço com a força -mas não com a ternura - de uma aquarela. e tudo isso me faz pensar em quanto os sonhos são escorregadios, o quão frustrante é ser a única responsável pelo meu próprio leme e mesmo assim, vê-lo insolitamente esfarelando entre meus dedos, como se fosse ampulheta em seus últimos grãos. o tempo pesa porque a ampulheta, da perspectiva do timoneiro, pesa sua presença e não seu ir-se. dar-se conta do tempo é sentir o seu peso e invariavelmente sentir sua imobilidade densa virando pressa repentina, afastando teu corpo da carne e pondo teus dedos em contato com todo tipo retido de verdade. sendo a verdade como o próprio tempo; o tempo como sua verdade própria, mas universal. as dores do metatempo ou da metaverdade. o escorregar mecânico, o deslizamento condescendente das terras as quais antes tiveram em si cravadas minhas fundações.
na minha tristeza se pinta o pouco eu que tenho sido e é na mágoa dura ou branda antes do primeiro banho da manhã que me vejo fora, buscando qualquer esboço de sorriso em dois pontos de fuga, dentre toda penumbra silenciosa e omissa do existir.
não quero a mim como peça fundamental da minha existência. interessa-me só o que me foge e flutua. o que me resta, eu destrincho dentro de um caderno pequeno, uma caneta que escreve sua própria ponta.
eu por mim, nem me seria.


