encontro
escrito em Dec 4, 2017
ainda que munidos de escritos e provas formais dos porquês as coisas se dão, penso que ninguém nunca vai ter ingerência real sobre como a comunicação entre elementos se estabelece. emergem, daí, variáveis fundamentais dentro de um mundo que se dana às constantes. esse sopro confuso de conversas explica o fato de mais de milhões de gentes terem uma mesma música favorita, e ainda que imersos nessa convergência inegável de acasos, nenhum gosta da mesma forma — e não há valoração nenhuma que caiba a neste processo.
comunicar é uma combinação infinita, permuta cósmica, se assim você acredita, ou mesmo, acasos curiosos, se assim outro você acredita. inclusive isso: na barra das crenças, não passam tesouras ou linhas de terceiros. entre eu e o deus que encontrei pra rezar, não há o outro. entre epiderme e os riscos que me tatuam, só há espaço pra mim. creio não ser isto um egoísmo tremendo, mas sim parte de nossa indivisibilidade; a única parte que não doamos e não perdemos. é o que nos acompanhará na eternidade de nós mesmos, onde não há horário de visitas.
pensei nisso tudo quando avistei minha pilha de cds empoeirados que há anos não deitam no discman vicini que os servia de casa. em papelão, vi o nada espesso “Oracular Spectacular”, do MGMT e comecei a divagar. pensei que definitivamente não gosto dos poemas da rupi kaur, por exemplo. tenho lá meus tantos argumentos, nenhum deles, no entanto, atenuam a importância que essas palavras tiveram na vida de amigas e de outras várias pessoas (a própria autora, inclusive). então lembrei que a pré-adolescente que me deu pontapés e fôlego para pensar no que é morar, pra pensar em música palavra sensação e imagem se entremeando, existiu e resiste ao som desse disco, comprado nas americanas no distante 2007. esse era o álbum 24/7, pichado na mochila, sustentava meus olhos curiosos, minhas mãos que não sabiam com quantos paus se faz a psicodelia. aquela banda se tornou meu norte sem que eu soubesse o que era um norte, um timbre, um bom arranjo ou um solo de guitarra sensacional. não que eu saiba hoje em dia, eu só descubro e redescubro.
sabe que diferença essa experiência faz na vida de quem está lendo? nenhuma. e a diferença que essa experiência faz no momento em que pessoas-micromundos colidem? toda. porém, para permitir encontros, há que se admitir que toda experiência — a minha e a do outro — é válida. chega-se ao fulcro do texto: comecemos a nos apoderar das nossas próprias experiências. acreditar no que se sente, no que se é, segurar firme em tudo que amamos, como cantou joseph mount. conhecer(se) para comunicar(se). só assim é possível saber com que ou com quem nos fundir, qual versão nossa nos apetece. se esses quens, quês e versões nos escorrerem entre os dedos, guardemos o momento da visita; lembremos que o hoje só o é porque houve ontem.
soe ingênuo ou indiferente pra quem for, o fato é que o outro nunca vai poder descreditar que um álbum de figurinhas ou de música, um livro ou um adesivo de carro ou qualquer evento medíocre ou pirotécnico é importante pra você. ninguém tem pulso, boceta, colhão ou clarividência suficiente pra dizer o que eu sinto e porque eu sinto. parte de mim ainda insiste em desvendar os outros, porém, erro e aprendo até chegar no zero. nos encarreguemos, então, da tarefa de conhecer-nos, todo dia, sem limites. assim sendo, a plenos pulmões digo que esse disco me ajudou a ser o que sou hoje.(dei essa volta toda só pra escrever essa frase)


