um texto do estômago
escrito em Dec 7, 2017

dizem que dói até não doer mais.
e pra onde iria toda a sopa do estômago quando para de doer?
não há legumes na sopa que cozinho, mas há pedaços de todo talo possível, um jeito específico de fechar a porta, uma silhueta, um pedido pequeno e verdadeiro. rapidamente, trocam-se os tecidos translúcidos esvoaçantes dos sorrisos mais gratuitos, pela frieza do talho que vê o peixe sendo cortado em postas. a vida vem me fatiando e, hoje, nesta noite (que pode vir a ser dia, já que texto é rebento em parto normal), tenho a ciência plena e pelejada de que eu não sei mais juntar minhas peças, minhas postas. esse processo de desconhecimento vem acontecendo há um tempo. isso também dizem que é normal.
um caso de analfabetismo cruel, em que eu só sei ler minhas cores, minhas formas, mas não meu sentido. sei juntar-me em sílabas, formar meu nome, mas não sei lê-lo em voz alta, tampouco interpretá-lo. no meio da selva do de dentro, ando em círculos, porque quem não se sabe, não acha saída, começo nem fim nem meio. é sempre uma corda esquisita, vibrante , vivida, nítida e encorpada como um morango fresco, com o orvalho em seu vermelho; a bem dizer, é um oásis. o caminho de quem não se sabe é tropeço asfixiante, ensolarado-de-queimar-pensamento. a cada andar, uma miragem , o morango, as pontas das cordas que me iludem. mostram que eu estou ligada debilmente a diversas coisas por afinidade pura, límpida. e eu não sei ver.
e então a foice do tempo cravou mais um motivo para desacreditar na consistência de toda e qualquer crosta. não que eu acredite que as coisas durem pra todo sempre, e nem que há culpados tão nítidos quando o jantar preparado a quatro mãos desanda. todavia, em tudo se espera que o nosso sempre seja longevo. e aí eu que já não sei me ler mais, eu que sempre amei a verdade contida num amor genuíno, me encontro em terras onde nenhum grito resolve a vontade de gritar. mesmo os dias em que meu cabelo se aninha e serpenteia de maneira bonita sobre meus ombros, não cura aquela vez em que a cebola queimou ou aquele dia do cachorro na chuva. como é que pode, tanta lembrança suculenta numa panela tão pequena…
transborda.
e aí tudo bem, é normal transbordar. é normal cortar os dedos junto com a cenoura (cenoura eu gosto). é normal ter um corte de cozinha. naturalmente, na hora de jogar o sal, vai arder tanto, mas tanto, que só a puta que pariu. da próxima, põe-se band-aid. tudo bem, é normal ver o rosto da pessoa na água que ferve, e também é normal querer colocar a cara nesse mesmo líquido. porque, eu entendo, são formas e formas de re-encontrar quem se foi, e todas elas doem. e pras queimaduras, especificamente, ou se evita chegar perto do fogo novamente, ou se aprende o jeito certo de curar a pele fina e pulsante. tem bepantol, tem gelo, tem pasta de dente. mas também tem choro. o certo é que uma hora a gente cansa do fogo. é o que dizem.
o problema, nisso tudo, é o elemento e a elementaridade do fogo. vocês já acenderam um fogão no escuro? naqueles dias em que falta luz e falta fósforo pra acender a vela e só resta o fogão — e quando também não há vela, resta fazer um miojo. repito, vocês já acenderam um fogão no escuro? pararam pra reparar que coisa mais linda desse e de outros mundos aquela chama que é azulanilamareloalaranjado, num degradê levíssimo e cruelíssimo pra bunda da panela? a mesma exata coisa que faz sopa, faz brasa. e então eu percebo que um rosto, posto que é chama, me relembra quanta beleza há escondida em pequenos potes de toda natureza. toda alegria de ver faísca acendendo em dois gravetos, lá naqueles tempos antiguézimos que nunca sei mensurar, a mesma alegria eu sentia vendo te acenderes pro mundo, como teu isqueiro fazia todo tempo. a alegria da descoberta, a beleza inigualável de uma chama acessa, flama da tua voz, corpo, cheiro, livros e manias. a brasa dos dias de silêncio, olhar perdido, pernas inquietas. mas o fogo molda belíssimos arranjos de vidro. entre o bibelô e o carvão, por qual a boca anseia?
ninguém pensa no próprio fígado quando um conhaque escalda o esôfago num dia frio, assim como eu certamente não me dou ao luxo de pensar em queimadura ao desejar, visceralmente, um abraço quente. não vai pro fundo, mana! ao invés de pensar no isqueiro e na pontinha alaranjada do cigarro entre as mãos espalmadas, pensa na nicotina, no pretume da química, elas me dizem. eu tento seguir, mas a porta se fecha, um eu-pequenina caminha pela floresta debaixo da cabeleira e acha um monte de velinhas de aniversário, fincadas num bolo delicioso. as velas estão com o pavio tão curto que a cera já desmorona. daqui a pouco elas apagarão, uma a uma, e essa cena, essa cena específica, meus amigos, é o sumo de toda a dor dessa sopa.
e pra deus o livre ver o vento apagando as chamas num tapa só, busca-se fôlego, sabe-se lá de onde, pra apagar as velas com nosso próprio sopro. o parabéns finda. é preciso atestar que é outro aniversário; não mais a rebeca de um ano atrás, não mais em camisas não minhas. agora, só eu e meus pés rachados e meu humor disparatado. embebida num algodão de mediocridade, sonhos amortecidos, flertes e apegos rasos, carnívoros e enfadonhos, condutas irresponsáveis e palavras afiadas sem querer.
e então, o oásis se faz sem-fim de terra novamente numa fração de segundos, exatamente representando a duração instantânea dos anseios em me achar, melhorar, tomar tento, me emancipar, nem que seja por meio desse texto. essa vontade acabou de acabar, agora mesmo. me confesso estanque no ínterim do parabéns em que se espera que a vela-teimosa acenda do nada, me garantindo mais um tempo de vida naquele carro. como me garantem o tempo todo que isso passa, já não sei se agora prefiro dormir ou continuar refogando palavras. na certa é sono
é fogo,
ser tanta sopa.

